Numa outra ocasião, havia um vizinho do Avô que era dono de uns cães muito maus, que dizia serem os piores de todos, que ninguém lhes poderia chegar. Mas o Avô desafiou o destino: tirou a roupa toda e aproximou-se dos cães de gatas. E o certo é que não o atacaram!
Por isto e por outras coisas, o Avô era o herói do Joãozinho. Como andava sempre descalço, pelos campos, pelos pinhais. Quando chegava a casa, à noite, sempre o mesmo ritual: o Avô lavava os seus pés no alguidar, depois massajava-os, antes de se deitar.
Ia com ele para as vinhas e admirava a forma como o Avô acarinhava as suas cepas: cada vez que fazia um corte, na poda, punha um pouco de saliva na cepa, com a ponta dos dedos, também as acariciava. Quando era altura de misturar o sulfato, despendia muita energia.
A avó materna representa a memória de carinho que guarda no coração. Joãozinho partilhava com ela as suas manhãs: levantava-se muito cedo, acendia a fogueira e preparava o pequeno-almoço – café com faneca ou sardinha frita envolta em farinha.
O pequeno João Ratão não gosta de favas, mas, para os avós não ficarem tristes, fechava os olhos e comi-as. Sempre que os visitava nas férias, era acolhido com um grande sorriso.
A relação dos avós com os animais também era muito especial: a Avó dedicava-se às suas galinhas, aos seus porcos; o Avô falava com os seus bois. E o Joãozinho ficava orgulhoso de o Avô ter os maiores bois da aldeia. Já mais tarde, os filhos receavam que ele, já de uma certa idade, ainda conduzisse os bois, pois alguma criança poderia atirar pedrinhas e os animais assustavam-se e ele já não os conseguiria controlar. O Avô sempre respondia: todas as crianças são minhas amigas.
As salgadeiras serviam para guardar a carne do porco que se matava. A sopa da Avó era a melhor do mundo: ela punha um pouco da manteiga do porco, a carne branca que era guardada no sal. Comia a sopa com broa. O pão branco era um luxo naquele tempo. Tanto que, quando havia, servia de conduto.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Peregrino III
Nessa mesma noite voltou a Santiago, à 1h da manhã. Queria sentir o que era Santiago de madrugada. Encontrou um rapaz que lhe pediu tabaco. Como sempre, JR presenteou-o com um truque de magia. Mas o jovem surpreendeu-o com um beijo na boca. Sem dizer mais nada, João Ratão foi embora – detesta contacto físico com as pessoas.
Perto da catedral, duas senhoras e um senhor pediram-lhe que tocasse o clarinete que trazia consigo. O Peregrino explicou que só tocava duas ou três coisas. As senhoras eram espanholas e o senhor era francês.
- Eu sou um grande industrial. Mas também faço social! – gracejou o senhor.
- Pois, olhe, eu sou feliz porque tenho pouco! – respondeu JR.
Na despedida, o senhor deu-lhe um abraço bem forte e um “vemo-nos amanhã”! Mais um contacto físico! Agggh!
Por volta das 2 ou 3 da manhã, aproximou-se de um grupo de jovens, que conversava animadamente. Ao lado, sentado, um senhor, com quem meteu conversa: tinha chegado como peregrino há 15 anos atrás e por lá ficou! Surgiu uma rapariga, com os seus 23 anos, bonita, já com os copos: quando eras mais novo devias ser muito lindo! Quando fores mais velha também vais ser muito bonita!, respondeu JR ao piropo. E a jovem dá-lhe um beijo na boca!
Logo eu que não gosto de contacto físico: arde-me a pele! Só as minhas companheiras e os meus filhos é que me podem tocar. Não gosto, sequer, que os meus colegas me coloquem a mão por cima! E na mesma noite: um rapaz dá-me um beijo na boca, um senhor abraça-me e uma rapariga também me beija na boca!
Perto da catedral, duas senhoras e um senhor pediram-lhe que tocasse o clarinete que trazia consigo. O Peregrino explicou que só tocava duas ou três coisas. As senhoras eram espanholas e o senhor era francês.
- Eu sou um grande industrial. Mas também faço social! – gracejou o senhor.
- Pois, olhe, eu sou feliz porque tenho pouco! – respondeu JR.
Na despedida, o senhor deu-lhe um abraço bem forte e um “vemo-nos amanhã”! Mais um contacto físico! Agggh!
Por volta das 2 ou 3 da manhã, aproximou-se de um grupo de jovens, que conversava animadamente. Ao lado, sentado, um senhor, com quem meteu conversa: tinha chegado como peregrino há 15 anos atrás e por lá ficou! Surgiu uma rapariga, com os seus 23 anos, bonita, já com os copos: quando eras mais novo devias ser muito lindo! Quando fores mais velha também vais ser muito bonita!, respondeu JR ao piropo. E a jovem dá-lhe um beijo na boca!
Logo eu que não gosto de contacto físico: arde-me a pele! Só as minhas companheiras e os meus filhos é que me podem tocar. Não gosto, sequer, que os meus colegas me coloquem a mão por cima! E na mesma noite: um rapaz dá-me um beijo na boca, um senhor abraça-me e uma rapariga também me beija na boca!
terça-feira, 4 de outubro de 2011
peregrino II
Era hora de parar. A noite aproximava-se. A noite de Natal! Chegaram a um local verdadeiramente mágico! O nevoeiro envolvia as árvores milenares, que escondiam uma clareira. Ao longe, um riacho deixava ouvir a sua canção de embalar. Um ou outro esquilo espreitava. Mais à frente, uma rocha enorme albergava uma gruta. Fizeram fogueira. Estenderam as mantas. Prenderam os toldos. Mas faltava a ceia! Digna de reis: 2 tomates, uma lata de cogumelos, 2 cebolas e algumas latas de sardinha. Que delícia! Um verdadeiro manjar! Não poderia pensar em iguaria melhor para a noite de Natal!
JR pegou na sua bicicleta e dirigiu-se ao supermercado que vira a 1 km dali. Chegou ao parque de estacionamento, arrumou a bicicleta e dirigiu-se à entrada. Antes de alcançar a porta, foi interceptado por um casal. Tinham-no visto passar com os animais e andavam à sua procura, quando o viram na bicicleta. Seguiram-no. Eram donos de uma mercearia e queriam oferecer-lhe umas coisitas. JR abriu o saco de plástico que lhe estendiam e agradeceu-lhes com o seu maior sorriso. Lá dentro? Um verdadeiro tesouro: estava repleto de tomates, cebolas, cogumelos, latas de sardinha! Tinha conseguido aquilo que mais desejava, mas em quantidades muito maiores das que tinha imaginado!
Regressou ao acampamento com a felicidade estampada no rosto! Preparou a refeição, que partilhou com a sua Companheira! Sentaram-se junto à fogueira, conversando e cantando, bem abraçadinhos. O céu, muito estrelado, servia de cenário perfeito!
Deitaram-se na gruta, com os cães à sua volta. E frio, naquele noite gélida, foi algo que não sentiram!
Passaram o dia de Natal, só os dois, com os seus animais. Rindo, cantando, lendo as mensagens que as pessoas foram deixando no “Livro da Viagem”. Que estava apenas no começo!
JR pegou na sua bicicleta e dirigiu-se ao supermercado que vira a 1 km dali. Chegou ao parque de estacionamento, arrumou a bicicleta e dirigiu-se à entrada. Antes de alcançar a porta, foi interceptado por um casal. Tinham-no visto passar com os animais e andavam à sua procura, quando o viram na bicicleta. Seguiram-no. Eram donos de uma mercearia e queriam oferecer-lhe umas coisitas. JR abriu o saco de plástico que lhe estendiam e agradeceu-lhes com o seu maior sorriso. Lá dentro? Um verdadeiro tesouro: estava repleto de tomates, cebolas, cogumelos, latas de sardinha! Tinha conseguido aquilo que mais desejava, mas em quantidades muito maiores das que tinha imaginado!
Regressou ao acampamento com a felicidade estampada no rosto! Preparou a refeição, que partilhou com a sua Companheira! Sentaram-se junto à fogueira, conversando e cantando, bem abraçadinhos. O céu, muito estrelado, servia de cenário perfeito!
Deitaram-se na gruta, com os cães à sua volta. E frio, naquele noite gélida, foi algo que não sentiram!
Passaram o dia de Natal, só os dois, com os seus animais. Rindo, cantando, lendo as mensagens que as pessoas foram deixando no “Livro da Viagem”. Que estava apenas no começo!
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Peregrino I
João Ratão é meio-maluco, maluco-alegre e fora do sistema. O que pretende? O mesmo que as gerações anteriores – a procura da sua própria verdade!
E foi assim desde logo a concepção.
O Pai e a Mãe, sentados à mesa, degustam a última refeição do dia. O Pai lança um olhar malicioso à Mãe, como quem diz quero brincadeira! A Mãe faz de conta que não quer alinhar. E escapa às investidas do marido. Correm à volta da mesa, num jogo de sedução muito próprio. Começou na mesa, mas acabou na cama. E um espermatozóide, vencendo milhares deles, fecunda o óvulo. A primeira batalha ganha!
Dentro da sua primeira residência – o ventre materno – já JR teve de se debater para se fazer ouvir. Quando as orelhas e o cérebro se formaram, começaram as complicações. Já captava as informações do exterior. E não lhe agradavam nem um pouco. Já com um menino de 18 meses, a Mãe estava sedenta por uma rapariga, que, mais tarde, a ajudaria com as tarefas próprias da lida da casa. E bem alto proferia: espero que seja uma menina! E assim JR viu renegada a sua condição masculina: menina isto; menina aquilo! Farto dessas conversas, o pequenote dava pontapés e fazia bolhas. Mas ninguém o podia ouvir. Ou entender!
No seu primeiro contacto com a Humanidade, os médicos decidiram dar-lhe uma palmadinha no rabo para chorar e respirar. Mas o JR já respirava. Só estava à espera de sair para poder gritar SOU UM RAPAZ!
E foi assim desde logo a concepção.
O Pai e a Mãe, sentados à mesa, degustam a última refeição do dia. O Pai lança um olhar malicioso à Mãe, como quem diz quero brincadeira! A Mãe faz de conta que não quer alinhar. E escapa às investidas do marido. Correm à volta da mesa, num jogo de sedução muito próprio. Começou na mesa, mas acabou na cama. E um espermatozóide, vencendo milhares deles, fecunda o óvulo. A primeira batalha ganha!
Dentro da sua primeira residência – o ventre materno – já JR teve de se debater para se fazer ouvir. Quando as orelhas e o cérebro se formaram, começaram as complicações. Já captava as informações do exterior. E não lhe agradavam nem um pouco. Já com um menino de 18 meses, a Mãe estava sedenta por uma rapariga, que, mais tarde, a ajudaria com as tarefas próprias da lida da casa. E bem alto proferia: espero que seja uma menina! E assim JR viu renegada a sua condição masculina: menina isto; menina aquilo! Farto dessas conversas, o pequenote dava pontapés e fazia bolhas. Mas ninguém o podia ouvir. Ou entender!
No seu primeiro contacto com a Humanidade, os médicos decidiram dar-lhe uma palmadinha no rabo para chorar e respirar. Mas o JR já respirava. Só estava à espera de sair para poder gritar SOU UM RAPAZ!
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