terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Os avós

Numa outra ocasião, havia um vizinho do Avô que era dono de uns cães muito maus, que dizia serem os piores de todos, que ninguém lhes poderia chegar. Mas o Avô desafiou o destino: tirou a roupa toda e aproximou-se dos cães de gatas. E o certo é que não o atacaram!
Por isto e por outras coisas, o Avô era o herói do Joãozinho. Como andava sempre descalço, pelos campos, pelos pinhais. Quando chegava a casa, à noite, sempre o mesmo ritual: o Avô lavava os seus pés no alguidar, depois massajava-os, antes de se deitar.
Ia com ele para as vinhas e admirava a forma como o Avô acarinhava as suas cepas: cada vez que fazia um corte, na poda, punha um pouco de saliva na cepa, com a ponta dos dedos, também as acariciava. Quando era altura de misturar o sulfato, despendia muita energia.
A avó materna representa a memória de carinho que guarda no coração. Joãozinho partilhava com ela as suas manhãs: levantava-se muito cedo, acendia a fogueira e preparava o pequeno-almoço – café com faneca ou sardinha frita envolta em farinha.
O pequeno João Ratão não gosta de favas, mas, para os avós não ficarem tristes, fechava os olhos e comi-as. Sempre que os visitava nas férias, era acolhido com um grande sorriso.
A relação dos avós com os animais também era muito especial: a Avó dedicava-se às suas galinhas, aos seus porcos; o Avô falava com os seus bois. E o Joãozinho ficava orgulhoso de o Avô ter os maiores bois da aldeia. Já mais tarde, os filhos receavam que ele, já de uma certa idade, ainda conduzisse os bois, pois alguma criança poderia atirar pedrinhas e os animais assustavam-se e ele já não os conseguiria controlar. O Avô sempre respondia: todas as crianças são minhas amigas.
As salgadeiras serviam para guardar a carne do porco que se matava. A sopa da Avó era a melhor do mundo: ela punha um pouco da manteiga do porco, a carne branca que era guardada no sal. Comia a sopa com broa. O pão branco era um luxo naquele tempo. Tanto que, quando havia, servia de conduto.

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